28 setembro, 2008

Ainda faltam uns largos minutos, aí uns 20 ou 30, e eu encosto-me à parede.

Quando estou à espera vejo o tempo passar. Literalmente. Não por mim mas por aqueles que por mim passam. Formigas tontas, sem alento e completamente absorvidas pelos deveres mecânicos da sua existência social. Convictos do seu plano menor.

O tempo só passa por eles. Não lhes foge por entre os dedos nem eles o tentam desesperadamente agarrar, isso seria poético. Simplesmente escapa e eles olham, serenos. Desarmados, poucos lhe resta senão um olhar vazio e um sorriso morno de resignação. Ignoram e levantam a cabeça, heróis da urbe. Para a frente é o caminho e melhores dias virão.

E ainda faltam uns minutos, prova de que o tempo só passa por eles.

Os olhares vazios multiplicam-se. Deambulam. Todos têm destino mas raros são os que vão a algum lado. Quase que adivinho a vida de cada um, não é dificil. E assim vou, imaginando-lhes a vida e traçando-lhes os percursos que cá os trazem e que daqui os levam.

Está quase mas já conto com o atraso, o tempo está sempre ao meu favor.

Vejo os mais novos. Esses ainda vivem. A ignorância protege-os e mantém o monstro da vida adulta no armário, ao lado do futuro, das obrigações e dos objectivos. Para agora bem lhes chega a escola e os professores chatos, com isso podem eles bem e ainda por cima têm 10 minutos de intervalo. Mas o tempo já passa por eles. Já dizia o outro que queria era ser louco!

Olha ele, já aí vem. Desencosto-me da parede, subo e degrau e junto-me à parada.

Mesmo assim, o tempo só passa por eles. Mas agora não tenho tempo para o ver passar.